quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Poemeto grafitado



Põe umas ideias na cabeça,
Nos dedos mete a euforia,
E no papel a alma fica,
Grafitada em meu retrato.


Rayane Medeiros

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ao Infinito


A Claudio Feliciano, Luiz Luz e Ramon Victor, 
dos quais sou verdadeiramente fã, e me inspiraram este conto.


“… Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parando involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de não sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam… então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é o meu substituto para a pistola e a bala…”

Moby Dick, Hermann Melville







Não era de muitos amigos, de muitas falas, de muitos risos. Mas quando o era, o era como ninguém. Conservava o hábito de manter-se só. Vivia para seus livros, seus discos, suas fotos pregadas na parede – a única coisa do passado que ainda mantinha viva. Não saía, não bebia. Mas a solidão – sua melhor desculpa – o obrigara ao vício do fumo. Nunca ninguém o via, mas se o visse, estaria indiscutivelmente, com um cigarro passeando dos dedos aos lábios. O cheiro do tabaco já não lhe desgrudava, era um romance infindável, e isso lhe chegava a ser até interessante. 
Não era feio. Em verdade, era belo. A pele branca, barba espinhando, cabelos quase cobrindo a testa expressiva. Tinha uns olhos escuros, de cobiça, desses que nos prendem, como a flertar o horizonte por horas. O riso era de criança que a tudo ver graça – inocente, fácil, convidativo. Era muito desejado. Várias mulheres passavam por sua cama, porém nenhuma teve a sorte de visitá-la mais de uma vez. Não o alcançaram além do prazer. Mantinha um relacionamento sério com sua própria solidão. Em dias alegres, onde se podia ouvir o barulho que vinha da rua, não desejava outra coisa senão a vida que levava. Em dias onde o silêncio era doloroso, se perguntava até quando continuaria ali, com as sombras a escutar seus dedos arrancando melodias do violão cansado.  Em dias de chuva, perdia-se na rua sombria e vazia, com a água fria a molhar-lhe a cara, os pêlos eriçados, a pele que nunca via sol. Deixava escorrer as amarguras, os desejos implícitos, a vontade em ver-se outro.
Foi num desses dias, em que nossos impulsos atropelam nossos hábitos, que ele decidiu sair. Sem destino. Sem nada esperar. Saiu. Deixou pra trás a casa cheia. De ilusões, verdades não ditas, vontades oprimidas. Levou no corpo uma roupa nunca posta, os pêlos no rosto que sempre conservava bem cuidados, e um sorriso que há muito tempo não usava. O vento fresco veio lhe receber à porta. O sol se erguia aos poucos, ainda não de todo acordado. Rua à baixo foi se encontrando aos poucos. Estava nos rostos que lhe fitavam curiosos, nas casas velhas, o cheiro de fruta madura, que roubava do quintal dos vizinhos enquanto moleque... Encontrou-se bem mais nas ruas, do que nas fotos que as mantinha vivas.
 Foi dar consigo enquanto olhava o mar, os pés descalços cobertos pela areia fria, a massagear os dedos cheios de bolhas; o sal lhe impregnando, desgrenhando o cabelo fino. Tinha diante de si os pássaros beijando a água salgada, as ondas quebrando nas pedras, alguns peixes que sobressaiam, banhistas que se arriscavam ao banho frio, castelos de areia que ainda resistiam... A praia sempre foi seu refúgio. Olhar o mar lhe era deliberadamente revigorante. Não, minto! Olhar o mar era tomar das drogas mais fortes, entorpecia-se! Passava horas olhando o infinito, desejando que este lhe tragasse, e lhe mostrasse um paraíso submerso. Foi ali que tantas vezes descarregou suas frustrações, seus planos de vida fracassados... Andou tanto tempo ocupado com o claustro, e o medo em encarar o real, que já não lembrava o quanto aquela imensidão azul lhe fazia bem... Encontrou-se finalmente.
A casa continua como ele deixou. Sem vida. Os vizinhos não deram por sua falta. Seus amigos sempre vão à sua procura, depois da ausência das cartas que ele ainda fazia questão de escrever. O procuram em vão. É provável que nunca o achem. As más línguas dizem que ele já não vive; que a morte o encontrou errante. Os bons de espírito acreditam que ele vaga, contemplando a liberdade. Extasiado, embriaga-se dela pelo tempo que se esquivou. Mas a única verdade, é que ele se encontrou. Ele finalmente se encontrou. 




Rayane Medeiros

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Meu


"Eu quero a sorte de um amor tranquilo" 
(Todo o amor que houver nessa vida, Frejat/ Cazuza)



Cansei de dissabores.
Quero versos eternizados;
Promessas infindáveis;
Um amor pra chamar de meu.

Quero colo abrigo,
Sussurros para preencher o vazio;
Uma vida pra entrelaçar na minha.

Cansei de catar migalhas.
Quero risos e arrepios,
Pernas e braços,
Boca e nuca,
Teu olhar devorando o meu.

Rayane Medeiros


sábado, 21 de janeiro de 2012

Rubor

"Ele me comia com aqueles olhos de comer fotografia" 
(A História de Lily Braun, Chico Buarque)



Cogitou em ter-me,
Mas conteve-se em
Fantasiar-me -
Tocar-me,
Despir-me com seus olhos profanos.

Conteve suas mãos na encruzilhada,
Desviou-se,
Represou tentações.

Conteve as batidas eufóricas,
O suor insistente,
O rubor que vez ou outra lhe traia...

Conteve o desejo em possuir-me,
Inspirar-me novos versos,
Fazer-me tua, simplesmente.


Rayane Medeiros

domingo, 15 de janeiro de 2012

Das Folhas que Caem



Três vezes a morte o cortejou, como um boêmio a galantear donzelas ingênuas. A primeira vez que se encontraram, o sol dava seu último passeio em pleno céu azul anil. Os pássaros embalavam a noite que logo viria, os velhos se recolhiam para suas lembranças nostálgicas. E assim, ele também o fez. Fechou-se para a solidão de seus aposentos. Na mesa, seu vinho lhe aguardava. Uma luz fraca iluminava o cômodo. Há alguns anos, diminuto para a grande família, que o tempo tratou de levá-la, aos poucos. Hoje, o vazio o tornava imenso, ecoando com o silêncio gélido. Sentou-se na cadeira, uma das poucas que restava, e pacientemente, tomou seu vinho barato, lembrando dos seus dias fartos, em que jamais tomaria algo parecido. No teto, uma corda lhe encarava. Passara o dia trabalhando no nó. Depois de longas horas, enfim o conseguiu. Estava orgulhoso com o feito. Para um velho que nada mais fazia da vida, senão ver e esperar o tempo passar, não ficou nada mau, sem dúvida. Depois de esvaziar a garrafa em grandes goles, levantou-se, ligou uma velha vitrola que milagrosamente, sobreviveu aos incontáveis anos. Olhou fixa e longamente para o nó, depois de o álcool o encorajar, e uma boa música o acalentar, pegou da cadeira, e com um esforço descomunal de velhos desajeitados, subiu-a, meteu a cabeça no nó, e num salto impensado, jogou-se para a eternidade.
Na manhã seguinte, o sol entrou sem permissão pelas frestas das janelas gastas, veio dar com um velho caído no chão, sobre uma cadeira despedaçada, e horas de trabalho árduo, desperdiçadas em um nó falho. Seu primeiro contato com a morte fracassara.
Seu segundo encontro com a morte não foi planejado. Para ele, uma das melhores coisas que já fez em vida. Foi em um dia de sol forte, quando resolveu sair para um passeio. Era um dia alegre, desses em que senão fosse doloroso, seria um excelente dia para se morrer. Ia atravessando uma rua movimentada, e num lapso, jogou-se na frente dos carros. Não lembra mais de nada, a não ser, que acordou em um lugar branco, irradiando com a luz que entrava, e de uma senhora simpática, a lhe encarar majestosamente. Essa foi a recompensa por mais um encontro com a morte, sem êxito. Com a senhora viveu dias muito bons em um abrigo, o mesmo local onde foi tão bem acolhido depois do acidente. Foram dias que lhe valeram pelos intermináveis anos de carência, a olhar da janela, a vida que passava ora numa correria, ora arrastando-se, como se o amanhã fosse insignificante. Nesse momento, ele apenas desejava que os ponteiros esquecessem suas funções, para com sua senhora, saborear esse sentimento de felicidade que a muito tempo desconhecia.
A morte o encontrou vitoriosa, num dia claro, com as folhas caindo das árvores, embaladas pelo vento fresco que deixava ainda mais agradável a tarde de sol. Para ele, um dia lindo para se chegar ao céu.  Ela veio inesperada, mas não indesejada.  O encontrou no jardim, depois de um café quente, um livro chegado ao fim, e com sua mão entrelaçada à da sua amada, numa conversa que continuaria mesmo depois da eternidade.




Rayane Medeiros