Põe umas ideias na cabeça,
Nos dedos mete a euforia,
E no papel a alma fica,
Grafitada em meu retrato.
Rayane Medeiros
Foi
num desses dias, em que nossos impulsos atropelam nossos hábitos, que ele
decidiu sair. Sem destino. Sem nada esperar. Saiu. Deixou pra trás a casa
cheia. De ilusões, verdades não ditas, vontades oprimidas. Levou no corpo uma
roupa nunca posta, os pêlos no rosto que sempre conservava bem cuidados, e um
sorriso que há muito tempo não usava. O vento fresco veio lhe receber à porta.
O sol se erguia aos poucos, ainda não de todo acordado. Rua à baixo foi se
encontrando aos poucos. Estava nos rostos que lhe fitavam curiosos, nas casas
velhas, o cheiro de fruta madura, que roubava do quintal dos vizinhos enquanto
moleque... Encontrou-se bem mais nas ruas, do que nas fotos que as mantinha
vivas.
Três
vezes a morte o cortejou, como um boêmio a galantear donzelas ingênuas. A
primeira vez que se encontraram, o sol dava seu último passeio em pleno céu azul
anil. Os pássaros embalavam a noite que logo viria, os velhos se recolhiam para
suas lembranças nostálgicas. E assim, ele também o fez. Fechou-se para a
solidão de seus aposentos. Na mesa, seu vinho lhe aguardava. Uma luz fraca
iluminava o cômodo. Há alguns anos, diminuto para a grande família, que o tempo
tratou de levá-la, aos poucos. Hoje, o vazio o tornava imenso, ecoando com o
silêncio gélido. Sentou-se na cadeira, uma das poucas que restava, e
pacientemente, tomou seu vinho barato, lembrando dos seus dias fartos, em que
jamais tomaria algo parecido. No teto, uma corda lhe encarava. Passara o dia
trabalhando no nó. Depois de longas horas, enfim o conseguiu. Estava orgulhoso
com o feito. Para um velho que nada mais fazia da vida, senão ver e esperar o tempo
passar, não ficou nada mau, sem dúvida. Depois de esvaziar a garrafa em grandes
goles, levantou-se, ligou uma velha vitrola que milagrosamente, sobreviveu aos incontáveis
anos. Olhou fixa e longamente para o nó, depois de o álcool o encorajar, e uma
boa música o acalentar, pegou da cadeira, e com um esforço descomunal de velhos
desajeitados, subiu-a, meteu a cabeça no nó, e num salto impensado, jogou-se para
a eternidade.