sexta-feira, 20 de abril de 2012

Imensidão


Quero ver o mar,
Pôr os pés na água,
Caminhar...
Quero sentir o vento emaranhando o cabelo;
O sal embrenhando na pele;
O frio arrepiando o pêlo...
Quero sentir a areia fina tocando os dedos;
Embebedar-me com o céu confundindo-se ao mar,
Os pássaros invadindo seus segredos...
Eu quero ver o mar,
Mergulhar,
Deixar as mágoas  por lá...


Rayane Medeiros




 


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sem Mais



Aquela tensão em esperar, vigiar os ponteiros do relógio para que eles não trapaceiem, enquanto a distração vez e outra se atenta para flertar com a rua – os carros que passam, as pessoas que se atropelam, o vento varrendo o dia que ficou nas calçadas. Aquela tensão em mastigar o vazio do tempo que não quer correr, que não quer partir e deixar-me em outros braços.

Aquele medo de encontrar-se com o Nunca Mais, com o rumo que a vida leva, e nos leva, involuntariamente... Medo de passar as mãos pela cama, e não encontrar o calor de uma pele que não a minha. Medo de não mais partilhar de risos e sussurros fora de hora, fora de eixo, fora de qualquer sentido racional.

Aquela velha angústia no aguardo que nunca finda - correr a vista pela casa, tatear a ausência, a escuridão que entra pelas frestas, como ratos famintos numa fome insana. Aquela angústia em suportar o encarar incessante das paredes que nunca falam, mas ouvem, sempre ouvem e muito atentas.

Aquela ânsia em devorar o incerto, o silêncio que não cala, as lembranças quase insustentáveis... Ânsia em corromper-me em teus beijos, impregnar-me com teu cheiro, embrenhar-me em teu pêlo, em teu selo, em teu corpo em ebulição.  Ânsia em devorar-te, sem mais. 

sábado, 14 de abril de 2012

Mudo, logo existo.



Sabe, sou terrivelmente mutável. Bom, o espírito ao menos. E fico querendo revirar a vida, os hábitos, os vícios... Terrivelmente, porque na maioria das vezes são tentativas falhas, e ainda que mude a vulnerabilidade, ou inclinação às mudanças, sempre me levam ou a retroceder, ou querer sempre o Novo; nada irá me aquietar, sou uma constante.   E cá fico eu agoniada, esperando que o extraordinário me aconteça. Mas já dizia o Raulzito “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Mudo como o vento errante, as fases da lua, o mar que nunca sossega, os pássaros afoitos no ar... Mudo, porque sou feita de inconsequências, ações não determinadas, desejos inconcebíveis. Mudo, porque é no agir que eu me faço Ser. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Vadio


Converto-lhe, meu senhor,
À minha religião,
A este paganismo desnudo,
À doutrina apedrejada por esta hipocrisia barata.
Converto-lhe, senhor,
A estes vícios infindos
Este abismo salobro que te engole e
Te cospe em desalinho.
Converto-lhe, ó senhor,
Ao paraíso de ser vadio,
De ser livre em demasia;
Pois se do pecado vim,
Do pecado viverei.


Rayane Medeiros

domingo, 1 de abril de 2012

Verme




Palavras,
Indo e vindo à contra mão;
Que não querem materializar-se,
Descrever-me o espírito,
A alma em inconstância,
O discurso não dito.
Palavras,
Esse vício que nos embebeda e quando ausente,
Deixa-nos a vigiar os ponteiros do relógio;
Que não verbaliza o vazio dos que nada esperam
E nada tem a perder.
Palavras,
Este verme desregrado. 


Rayane Medeiros