sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Famulus

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar na verdade não há.
(Pais e Filhos, Legião Urbana)



(Família vem do Latim famulus, que significa escravo doméstico.)


Não há lugar para mim – 
Um espaço
Onde me encaixe,
Me acomode,
Onde me refaça.

Não há o calor acolhedor -
Partilhado entre os seus
Onde me protejam,
Segura esteja,
Onde eu me seja.

Não há lugar para mim –
Um vazio que eu preencha,
Um laço que eu me agarre,
Um futuro que me prenda,
Não há um comum agrado.

Não há uma vida –
Há um comodismo,
Um amor que desconheço,
Um abismo recíproco,
Uma aparência que nos mantêm.

Não há lugar para mim –
Há algo que me restou
 – E vivo pulsa –
Do Bom que se quebrou,
e me desfez.

Rayane Medeiros

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Torpor


"Quando um certo alguém
desperta o sentimento
é melhor não resistir
 e se entregar."
 ( Um Certo Alguém, Lulu Santos)




Teu cheiro ainda está gravado
Em meu corpo –
Inebria-me,
Deixa-me torpe,
Ardendo em teu pecado prazeroso.

Tuas mãos ainda deslizam
Pele abaixo –
Afáveis,
Sem consentimento,
Submissas às lembranças,
Meu tormento.

Teus olhos me fitam, insistentes,
E me convidam,
Desarmam-me,
Para juntos adormecerem
E no paraíso se perderem.

Teu gosto já se confunde ao meu
E me revira,
Devora-me,
Faz-me querer-te
E não mais largar-te.



Rayane Medeiros

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Insônia

"Morfeu deitou, adormeceu e esqueceu de mim." (Insônia, Capital Inicial)





A insônia é minha companheira de agora.
Fiel, vaga comigo pela casa
Contemplando, solícita,
O silêncio reprimido que chora.

Veio-me amarga,
Aquecendo-me, gole abaixo, o corpo despido...
Dilacerando lembranças frias,
A instabilidade infame que já não me larga.

Fez-me atento, quando a noite me sorria,
Roubou-me o acalanto –
O roçar convidativo de outros pés.
Fez-me senhor, quando vassalo era o que queria.

A insônia me fez ausente,
Fugitivo dos braços de Morfeu.
Deixou-me entregue à sorte –
À noite fria que, logo finda,
Adormeceu...




Rayane Medeiros

sábado, 6 de agosto de 2011

Alheio

Do filme "O Retrato de Dorian Gray" 

Meu mundo é o pecado que cometo
A cada passo mal dado,
Cada sussurro abafado.
É o dia que se finda em outro dia,
Em outras mãos
Extasiado –
Sem compaixão

Meu mundo é o abismo que retalho, 
Onde mergulho, 
Instigado
Em teus segredos... 
Onde devoro –  
Em longas doses –  
O sabor ardente de teus desejos.

Meu mundo é uma estrada adversa,
Onde sigo às pressas,
A largos passos,
À procura de outros braços 
Que me envolvam, 
Que me enlacem 
E em mim dissolvam.

Meu mundo é alheio,
Instável –
E vaga, insaciável,
Para encontrar-se ao seu.

Meu mundo jaz em outro mundo 
E agita-se, 
Eufórico, 
Num findar-se profundo...


Rayane Medeiros


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Voraz



   A vida é o instante de agora  
  Onde eu me apresso
  Me entrego
  Me enlaço
  Me embriago
  Onde eu me desfaço
  E ela logo me devora.


Rayane Medeiros